quarta-feira, 7 de março de 2012

Alpharrabio 20 anos – O Alpha pelos alphas XIX

Mosaico

Hugo (Guedo Gallet)
Há que se verificar o nível do papel para que a tinta não escorra com o redemoinho causado pela fala de tantos livros. Sempre, aqui e ali, uma idéia, ou melhor ainda, uma visão decola de um lado e atravessa as salas para outro lado, como aqueles incríveis passarinhos verdes de asas fechadas. A indiazinha dos computadores escreve com fúria e um cristal emana das palavras e se estabiliza no vácuo. A muito peculiar senhora madeirense obtempera mas, às vezes, desobtempera como se nada fosse, como se apenas alteasse uma ilha do mar da Irlanda. A irmã se afana , lidando com coisas estranhamente materiais quando ela (ela mesma!) encontrou um peixe numa flor. Temos que desviar da terrível mulher das chaves: essa, muito atenta, abre e fecha portais com a mesma facilidade de um elfo ou de uma hamadríade. O rapaz vermelho lê obsessivamente sem se dar conta que seus óculos são daqueles que geram um túnel na névoa e que o papel impresso tem a raiz em outro plano. A fotógrafa que percebe devagar que as fotos só mostram o que está imediatamente à frente ou imediatamente atrás, nunca exatamente ali.
alpha20hugo
O alpha e artista residente em pleno exercício de sua genial maluquês no Alpha – Foto: Luzia Maninha, acervo ABCs Núcleo Alpharrabio de Referência e Memória.
O pintor maluco vê daqui (no entanto dali!) por causa da luz e elabora, a custo, uma cosmogonia das nuvens quase negras e do vento. A poeta loirinha e o desenhista cabuloso se perdem em signos e pequenas partes do corpo humano, como se projetassem um mapa ou um sextante. O velhinho dos pistões à vapor e dos Outros livros, vinha às vezes apenas sorrir, usando a boca como olhos e os olhos como boca. Entre losângulos isósceles de madrepérolas delicadas, o frei com a lenda partilhada tanto quanto as várias mortes do leviatã. Um outro, historiador do sonho do continente perdido, puxava as fraldas do mato e dos rios, cheios de formigas armadas, terríveis, e nomes arredondados. Agora, ou depois quem sabe, o poeta barbudo era trazido por uma chuva de partículas e umas sílabas, tantas quantas há em véus persas. O outro, um poeta sério e talvez triste (há sempre uma gota de escuridão neles todos, como uma porta que se abre num muro) tirava da cidade plasmada uma rede de becos, guias e rachaduras que mais importantes.
Há aqui uma inexplicável porém inevitável diluição parecida com o que acontece no fundo de uma taça. O som inaudível da conversa dos muitos autores e infinitos personagens que bebem e nadam num labirinto cheio de arcadas e peixes lunares. Um escudo antigo acontece atrás da porta e Agatha foi embora.

Tudo deriva sobre algodão em direção à Berlim e além, para Ierevan.
Logo, o planalto da pérsia e alguns tigres.
Logo terão chegado.



fonte: www.alpharrabio.com.br

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