segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Jean-Luc Godard

por Redação: Daniel Reis - 20/09/2008

Contribuidores: Edição:Valquíria Rabelo, Produção:Adriana Mariano
Jean-Luc Godard foi um dos inovadores da linguagem cinematográfica na década de 60, na chamada Nouvelle Vague francesa (movimento que propunha valorizar a concepção da direção no cinema).
   Nasceu em 03 de dezembro de 1930, em Paris na França. Vindo de família rica, passou os primeiros anos de sua vida e a adolescência na Suíça, retornando mais tarde à França, para estudar Etnologia, na Universidade de Sobornne. Seu interesse pelo cinema foi crescente em sua formação acadêmica. 

   No início dos anos 50, Godard começou a trabalhar, escrevendo críticas de cinema para o Cahiers du Cinema. Conviveu com outros diretores da Nouvelle Vague, entre eles Jacques Rivette e François Truffaut. Segundo Carlos Diegues, “enquanto foi crítico, Jean-Luc Godard se considerava um cineasta e, quando começou a fazer filmes, fez questão de manter-se crítico”. 

   Nesta mesma época, rompeu com sua família após roubar-lhes dinheiro, para financiar os filmes do diretor Rivette. Em 1955, gravou Operátion Béton, seu primeiro curta-metragem, patrocinado com as economias de seu próprio salário e fruto de um período em que trabalhou como operário. 

   Godard se casou duas vezes, a primeira vez com a atriz que ele lançou no cinema, Anna Karina, sua esposa entre 1961 e 1967 - que trabalhou em A Woman is a Woman (1961) e Band of Outsiders (1964), dentre outros, sendo que o rosto da atriz era muitas vezes o tema central das cenas desses longas. Seu segundo matrimônio, que durou de 1967 à 1979, foi com a também atriz Anne Wiazemsky. 

   Jean-Luc Godard não gosta de comentar detalhes de sua vida particular e não monitora nada o que sai ao seu respeito. Portanto, não há nenhuma biografia publicada sobre ele que seja absolutamente confiável.  Sua última produção foi o longa-metragem Our Music (2004). Hoje, aos 77 anos, após produzir mais de 80 filmes, Godard não escreve mais nenhum roteiro. Passa seus dias folheando, rasgando e retirando citações de livros, sem perder seu espírito de amor e crítica às artes, em especial ao cinema.

O cinema de Godard

“Existem normas e exceções. A cultura pertence à norma e a arte à exceção. Todas essas coisas pertencem à norma: cigarro, computador, camisa, televisão, turismo, guerra. Nada pertence às exceções”

   Na frase acima, Godard estabelece um dos pontos fundamentais para o entendimento de sua concepção de cinema. Tomando como premissa a divisão entre cultura e arte, ele considera toda a indústria cinematográfica - baseada em normas, fórmulas e lucros - como cultura, enquanto a arte estaria no terreno da livre criação, liberta das amarras econômicas. Seu objetivo final seria a busca pelo cinema-arte, sendo que tal ponto acaba se constituindo como uma constante na obra do diretor, marcando presença nas diferentes fases de seu trabalho. 
La Nouvelle Vague – Primeira Fase

   No primeiro período de sua carreira, o diretor concentra seus esforços em desconstruir as fórmulas da indústria cinematográfica. Seu primeiro longa, Breathless (Acossado, 1960), é considerado um dos filmes mais representativos do Novelle Vague e alcançou considerável sucesso de público, com a venda de mais de 260 mil entradas nas casas de exibição parisienses.

   Seus primeiros trabalhos tinham como característica a quebra da tradicional linha narrativa, abandonando a noção de tempo contínuo; a montagem utilizava o recurso de “jump cut” – que é a retirada do meio de uma seqüência, mostrando apenas momentos do começo e do fim da mesma. Há também um processo de modificação da ênfase cinematográfica, que desvaloriza a ação e focaliza os personagens e diálogos. Godard quebra com os planos tradicionais de fotografia, utilizando cenas onde os atores falam de costas para a câmera, assim como longos planos seqüências com a câmera-livre. A contra-luz também é utilizada, quando mostram a silhueta dos personagens frente o cenário – sendo que nesse campo o diretor opta pela não utilização de locações em estúdio. 

   Como decorrência desses recursos, o espectador é incentivado a assumir um papel ativo para que possa compreender o filme, o que acarreta uma maior capacidade de reflexão sobre os assuntos abordados. O aspecto reflexivo é também estimulado pelo grande número de referências existentes na obra de Godard, principalmente sobre filosofia, poesia e sobre o próprio cinema. Tais alusões geralmente não são creditadas, exigindo que o espectador tenha um repertório prévio e perspicácia para percebê-las.

   Em sua busca por quebrar as fórmulas do cinema-cultura, Godard realizou obras dos principais gêneros hollywoodianos, como A Woman is a Woman, (musical romântico, de 1961), The Riflemen (filme de guerra, de 1963), Contempt (drama romântico, e também um filme sobre fazer filmes, de 1963) e Alphaville (ficção cientifica noir, de 1965). Foi também durante esse período que Godard alcançou o auge de sua popularidade entre público e crítica, sendo aclamado como um dos maiores e mais revolucionários cineastas de todos os tempos. Seu último filme dessa fase foi Week-end (1967).
Cinema Político - Segunda fase

   O segundo momento do trabalho de Godard é marcado pelo engajamento político, de cunho marxista. O cinema se transforma em instrumento fomentador da revolução, com potencialidade de modificar a realidade. Essa ruptura na obra do cineasta está relacionada com a modificação de sua visão de mundo, em decorrência do movimento estudantil de Maio de 1968, que teria lhe apresentado pensamentos tipicamente esquerdistas.
 
   O cinema-cultura assume o papel de opressor e colonizador, um meio de controle da sociedade. Godard afirma, então, que “a arte nasce do que ela queima”, e passa a defender a destruição completa dos padrões conhecidos. Em um encontro com Glauber Rocha, ele chegou a dizer que “os brasileiros devem ajudar a destruir o cinema”. 

   O experimentalismo cinematográfico chega aqui ao seu ápice. A falta de linha ou ordem narrativa, além dos filmes sem roteiro eram características de suas películas; algumas tinham monólogos com mais de quinze minutos, personagens sem nomes, diálogos em vários idiomas e às vezes realizados do lado de fora dos planos, bem como cenas montadas sem qualquer ligação estrutural. A trilha sonora tradicional também foi desconstruída, sendo em alguns casos substituída pelo som das máquinas, com as quais os operários eram obrigados a trabalhar.

   A questão da autoria é outra de suas preocupações nesse período, já que ele passou a ver a arte como fruto da coletividade. Tal crença o levou a assinar seus trabalhos sob a alcunha do grupo Dziga Vertov, em colaboração com Jean-Pierre Gorin.

   O caráter revolucionário das obras dessa fase, que durou até 1972, combinado à ruptura, em certos aspectos, com as produções anteriores, resultou em uma grande perda de espectadores, que passaram a rejeitá-lo; mesmo a crítica, que sempre o havia apoiado, acabou por esquecê-lo. O público que ele tentou atingir, por sua vez, também não foi cativado por seus novos filmes. A carreira de Godard caminhou para o ostracismo.
O Fim do Cinema – Terceira Fase
   
   Na segunda metade da década de setenta, JLG ensaiou uma reaproximação com a narrativa tradicional, porém não conseguiu recuperar seu público anterior. Passou, então, a realizar uma série de experimentos com vídeo, intercalados por alguns filmes mais convencionais, que muitas vezes não conseguiam sequer distribuidores fora da França. No final da dos anos 80, iniciou um de seus maiores projetos: o Histoire(s) du Cinema, uma homenagem e uma declaração de amor ao cinema. Na década de 90, alternou documentários com filmes pessoais, que mostravam o diretor se questionando a respeito do caminho percorrido e dos resultados obtidos.

   Talvez o sentimento que marque essa última fase seja a melancolia, provocada pelo resultado final de seu projeto, que acabou sendo derrotado frente ao poder da indústria cinematográfica: a derrota da arte frente à cultura. Segundo Godard, "houve um tempo em que o cinema poderia ter melhorado a sociedade, mas esse tempo passou”. Sem qualquer otimismo, o diretor encerra a frase com: "Cinema is over".



fonte:http://www.fafich.ufmg.br/tubo/criacao/iptv/cinema/o-cinema-classico/jean-luc-godard-1/

Nenhum comentário:

Postar um comentário