quinta-feira, 1 de setembro de 2011

POESIA ESSENCIAL


                                   


Caros amigos

Não comentarei aqui o triste acidente ocorrido em Santa Teresa. (Alguém tem dúvida de que essa é uma maneira de acabar com os bondes?) nem a declaração de um chefe de polícia de que "A Milícia mata mais que o tráfico"; a morte por atropelamento causada pelo ex-responsável pelo projeto da Lei Seca ou a cassação da carteira da Diretora do Detran. O que hoje é notícia, amanhã é estatística, principalmente em relação às mortes. Foram-se as pessoas. O governo lamenta, mas dá três dias de luto pela morte de um funcionário da Rede Globo.

Eu não sei bem o que isso significa, e talvez não alcance jamais. 



É que sozinha, no meu retiro, às vezes quero comentar os acontecimentos. Mania de ser gregário que ainda subsiste. Mas os acontecimentos de agora são também os não acontecimentos, tipo: "A notícia de última hora é para informar que o terceiro filho do ditador NÃO foi preso". Ou "A vitória ainda NÃO foi alcançada. Coisas assim, do avesso. 
Melhor é manter distância e partir para o que é alto, para o que nos estimula e encanta. Falo aqui do volume da Série Essencial editada pela Academia Brasileira de Letras sobre o poeta Raimundo Correia, de autoria do poeta e ensaísta Augusto Sérgio Bastos.

A melancolia, que acompanhou Raimundo Correia durante toda a vida, mais a doença e o desgosto causado pelos invejosos ante às suas qualidades de versejador se dissipam durante a leitura do texto que lhe dedicou Augusto Sérgio Bastos, também um poeta essencial. A voz que ouvimos é a de quem compreende, de quem fala com tanta naturalidade e conhecimento sobre a vida, profissão e poesia de RC que bem poderia ter sido um contemporâneo, um amigo, uma testemunha daqueles tempos.


Raimundo Correia todo o mundo conhece, ou quase todo o mundo que gosta de poesia, mas Augusto Sérgio Bastos não é devidamente conhecido e eu, que gosto de homenagear os vivos, quero informar também que ele é um grande contador de histórias. E estará no próximo dia 5 de setembro falando sobre Raimundo Correia, não só sobre o que está no livro, mas também contando casos interessantes da vida do poeta. No Pen Club, às 18 horas, na Praia do Flamengo 172- 11º andar. É para não perder. Como disse o próprio Augusto em seu poema


Cotidiano 


Há que se vender jornais: 
isso o jornaleiro faz.
Há que se controlar o trânsito:
isso o guarda na esquina faz.
Há que se varrer as ruas:
isso o gari agora faz.


Há que se tirar o pó das palavras:
isso só o poeta faz.

Deixo-lhes, portanto, um dos mais famosos poemas de Raimundo Correia e, naturalmente, um do poeta Augusto Sérgio Bastos.




Mal Secreto 
Raimundo Correia

Se a cólera que espuma, a dor que mora 
N’alma, e destrói cada ilusão que nasce,
Tudo o que punge, tudo o que devora
O coração, no rosto se estampasse;


Se se pudesse o espírito que chora
Ver através da máscara da face,
Quanta gente, talvez, que inveja agora
Nos causa, então piedade nos causasse!


Quanta gente que ri, talvez, consigo
Guarda um atroz, recôndito inimigo,
Como invisível chaga cancerosa!


Quanta gente que ri, talvez existe,
Cuja a ventura única consiste
Em parecer aos outros venturosa!



Cruzes 
Augusto Sérgio Bastos



Cruzes são braços magros
Braços que nunca se fecham
Braços que nunca se tocam


Vigiam do alto do morro
Acolhem na torre da igreja
Espantam no milharal


Alguns carregam às costas
A outros servem de culto
Que a elas pedem socorro


Com esses vão para o túmulo.

Obs: Não resisto dizer que reparei, na capa, tratar-se de uma edição impressa pela imprensa oficial. Pensei logo que a imprensa oficial seria a do Estado do Rio de Janeiro. Não mesmo. É a do governo de São Paulo que faz imprimir a coleção. Alguma surpresa nisso? ...


Helena Ortiz em integrada e marginal

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