sexta-feira, 27 de maio de 2011

alguma poesia




I

não. não bastaria a poesia
deste bonde
que despenca lua
nos meus cílios.
num trapézio de pingentes
onde a lapa
carregada de pivetes nos seus arcos
ferindo a fria noite como um tapa
vai fazendo amor por entre os trilhos.

II

não. não bastaria a poesia cristalina
se rasgando o corpo
estão muitas meninas
tentando a sorte
em cada porta de metrô.
e nós poetas desvendando palavrinhas
vamos dançando uma vertigem
no tal circo voador.

III

não. não bastaria todo riso pelas praças
nem o amor que os pombos tecem pelos milhos
com os pardais despedaçando nas vidraças
e as mulheres cuidando dos seus filhos.

IV

não bastaria delirar Copacabana
e esta coisa de sal que não me engana
a lua na carne navalhando
um charme gay
e um cheiro de fêmea
no ar devorador
aparentando realismo hiper-moderno,
num corpo de anjo
que não foi meu deus quem fez
esse gosto de coisa do inferno
como provar do amor
no posto seis.
numa cósmica e profana poesia
entre as pedras e o mar do Arpoador
uma mistura de feitiço e fantasia
em altas ondas
de mistérios que são vossos.

V

não. não bastaria toda poesia
que eu trago em minha alma
um tanto porca,
este postal com uma imagem
meio Lorca:
um bondinho aterrizando lá na Urca
e esta cidade deitando água
em meus destroços

pois se o cristo redentor
deixasse a pedra
na certa nunca mais
rezaria padre-nossos
e na certa só faria
poesia com os meus ossos.




injúria secreta


suassuna no teu corpo
couro de cor compadecida
ariano sábio e louco
inaugura em mim a vida




pedra de reino no riacho
gumes de atalhos na pedreira
menina dos brincos de pérola
palavra acesa na fogueira





pós os ismos tudo é pós
na pele ou nas aranhas
na carne ou nos lençóis
no palco ou no cinema
o que procuro nas palavras
é clara quando não é gema



até furar os meus olhos
com alguma cascata de luz
devassa em mim quabndo transcende
lamparina que acende
e transforma em mel o que antes era pus


arturgomes
http://juras-secretas.blogspot.com/


luiza


sobre teu nome a  língua desliza
como brisa no vale dos vinhedos
tocam meus dedos tuas mãos de chuva
os dentes mordem as uvas
onde o sobrenome guarda   teus segredos

artur gomes
http://musadaminhacannon.blogspot.com

quinta-feira, 26 de maio de 2011

quero muito mais a carnavalha


me encanta mais teus olhos
que o plano piloto de brasília
o palácio do planalto o alvorada
me encanta mais as mãos da namorada
que a bandeira do brasil
o céu de anil a tropicalha


quero muito mais a carnavalha
do que a palavra açucarada
quero a palavra sal do suor da carne bruta
a flor de lótus do cio da fruta
mesmo quando for somente espinhos
me encanta os pés que a lata chuta
por entender que a vida é luta
e abrir novos caminhos

me encanta mais na lama o lírio
a flor do láscio
os olhos da minha filha
que o ouro dessas quadrilhas
que habitam esses palácios


domingo, 22 de maio de 2011

nas entranhas do poder



desde ribeirão preto
a caixa preta me fala
tem água estranha na fonte
há algo estranho na mala

os urubus são testemunhas:
o cheiro agora resvala
“quem cala consente
quem sente fala”  (eliakin rufino)

a Nação quer conhecer
o que o palocci
tem na mala


sábado, 21 de maio de 2011

poema de 7 foices


como preservar a Amazônia
como exterminar a miséria
se as 7 patas de Vênus
cavalgam a besta do planalto
poema de 7 foices
atrás da face anticristo
e nos palácios os crápulas
com suas caras de vidro
defendem os pastos de soja
devastam florestas pra búfalos
cada qual atrás dos mantos
esfarrapados dos partidos
nunca vi tanto canalha
no mesmo espaço reunidos

federico baudelaire – viagens insanas




quinta-feira, 19 de maio de 2011

Rio in chamas

meu labirinto solto
 na vertigem da tarde
tudo enquanto arde
do outro lado do dia
não tenha medo
sempre haverá poesia
mesmo quando não tocar teu corpo
e as formigas não alcançarem
o açúcar desejado
meu coração alado
cantará um rock na sessão das cinco
teu coração aflito soltará o grito
entalado na garganta
o cinema inteiro explodirá na tela
a pólvora do pavio
e como amante turca me beijará na urca
doida como o cio
e não bastaria as sextas feiras da lapa
samba reggaes ou tapa
enquanto a outra cidade dorme
com balas atravessadas nas casas
entregues ao destino da sorte
quando a vida é o que menos importa
se a língua da noite é torta
e o veneno da morte
está tampado nas latas
e o leblon arde em chamas
toda volúpia nas camas
na madrugada o desafio
não bastaria todo medo
que ela sempre  teve de me entregar a boca
agora como louca musa voraz insana
despeja em copacabana
toda voragem desse Rio





quarta-feira, 11 de maio de 2011

alice melo monteiro gomes



cata vento
inverte o movimento
leve o pensamento
para o outro lado do litoral
despeja em mim o vento
transborda esse momento
no meu peito carnaval

em um útero que deixei sementes
nasceram filipe e flora
que me ensinaram a profissão de pai
de outro útero você veio agora
e me acorda sempre
antes do dia amanhecer

abençoada pelos deuses
 do mar e da chuva
alice era mais que um sonho
que a gente acreditava
que um dia ia nascer

artur gomes

segunda-feira, 9 de maio de 2011

A OUTRA HISTÓRIA DA ROSA (II)


http://arturgomes-fotografia.blogspot.com



A rosa tatuada,

ainda que posta ao alcance do nada,
sobrevive aos efeitos de seus espinhos,
quando se perde em pétala espalhada
por galhos secos da roseira em luto.
Cinzenta e violácea, tal figo em calda,
reveste-se de flor em fruto,
no que se assenta sobre o que respalda.
Diante do que se lhe avermelha
a rubor de paixão e sangue pisado,
ao pé do que se diz amado,
estende-se em jardim, insone e insistente,
inscrita a ferro e fogo em pele ardente,
na pressão do dedo – cravo em riste
que a transporta em trilha de caminho torto
quando se abre em rota insana e triste
– legenda de amor em perda e aborto.


MAR AMAR

A onda que chega e que some é espuma,
que se estende n’areia em toalha de bruma.
É teia se fazendo num sopro de vento
que alimenta e suspira meu último alento.

Depois que a luz se faz manhã de paz em dia,
como gota de sal ao temperar o peixe,
em milagre,distribuo pão e maresia,
antes que a paixão por aqui, então, me deixe.

E vou inventando cidade à beira-mar,
nos poros da terra em que enterrei tolos sonhos,
enquanto me inundo em dunas de azuis risonhos.

Navio e âncora, penso em te velejar,
afundar-te na maré que me experimenta,
indo e vindo na saudade e na tormenta.


O TIRO PELA CULATRA

Não, a mulher de verdade não sou eu.

Mas a abelha rainha

que se encontrou n´algum rei,
que se deu no que serei
de mar azul e noite de lua,
vindo-a-ser sereia.

Não, a mulher de verdade não sou eu.

Nem a que se virou, toda sua,
em dona de bordel,
no que será que se deu
por noite escura, claro céu.
E nuvem, manto em solidéu.
Não, a mulher de verdade não sou eu.

Abelha por mel e sol,
Solidão em dia que não transcorreu,
flor e feto lacrado em formol
da mulher que, de verdade,
não nasceu. Nem sou eu.


CILADA

Embaixo da escada, passei várias vezes,
por malquerer e sorte
— desavisada.
E depois, sem mais que nada,
por dor, paixão e morte,
inscrevi destino e sina — reveses.

Recebi do azar dotes e porte,
em primeira mão,
de sim em sim e não em não.
E fui seguindo, sem noite nem seita,
varando a madrugada,
embora sabendo de uivos e lobos, à espreita.


AÇÚCAR

é verde e veio
de cana caiana
sangrando
o suco operário
de muitos suores
e caldos
melados
fermentos
cachaça
melaço
e canaviais
roçados
de calos
nos pés e nas mãos
e bóia fria
marmita
— aceiros intermináveis
e joios e pedras
e foices
e folhas secas
estalando miséria.


DIÁSPORA

No útero da mãe África
fervilham seios que amamentam os filhos do amanhã
e costuram os tecidos da verdade temporã na América
de tantos escravos e navios negreiros aportados
na escuridão de brasis, jamaicas, cubas e haitis
– todos mortos pelas terras e serras maestras
de amanheceres construídos com baionetas e fuzis.

Em portos ricos e bahias, cantaremos a sorte
da sobrevivência sobre tanta morte.
No encontro com a terra te elegeremos – ilê-ayê,
e flutuaremos, como velas nascidas da renitência,
em aflitas razões, racismo e resistência,
ao som de atabaques, tambores e tamborins
e também assim faremos um samba na Mangueira
ou entoaremos um blues em New Orleans.

Vasculharemos tudo: instintos, sentimentos, religiões,
raízes indevassadas e meras intuições.
De onde nos tiraram as verdades,
sucumbiram saudades e lamentos.
E depois, ainda mais escravidão.

No ruir de tudo, memória e banzo.
O novo mundo é quando?

AMÉLIA ALVES
http://www.palavrarte.com.br/

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Marcos Coimbra: Partidos em crise

 

por Marcos Coimbra, em CartaCapital e VioMundo

Se há uma coisa com a qual todo mundo concorda quando se discute política é que os partidos são fundamentais na democracia. Até existem partidos em países não democráticos (como as legendas únicas de ditaduras à esquerda e à direita), mas não há democracias sem eles.
No Brasil, os partidos nunca encontraram, porém, ambiente propício para se enraizar e se desenvolver. Em nossa história, sempre tenderam a ser breves, pouco presentes na vida social e vistos com desconfiança.

Também pudera. Saímos de um regime de limitada participação no Império para uma República onde as restrições continuavam imensas. Nosso eleitorado era pequeno e decidia a respeito de poucas coisas. Tudo de relevante se resolvia nas confabulações da elite.
Atravessamos os 50 anos entre a Revolução de 1930 e a redemocratização de uma ditadura a outra. A cada mudança, os partidos existentes eram extintos e criavam-se novos. Seria querer demais que estabelecessem vínculos profundos com a sociedade.

Os que surgiram em 1945 duraram apenas 20 anos, mas foram os que mais marcaram nossa vida política. Até pouco tempo atrás, ainda era possível encontrar pessoas que se identificavam mais com eles do que com os atuais. PSD, UDN e PTB, ao lado de outras legendas menores ou regionais, ainda estão presentes nas referências de nossa cultura.

Nenhum morreu de morte natural, causada pela perda de representatividade ou o desinteresse dos eleitores. Em sinal paradoxal de respeito, os militares os extinguiram por Ato Institucional específico, como que reconhecendo sua importância e o quanto poderiam representar de obstáculo ao modelo de sistema político que queriam implantar.

Por que será que a democracia pós-redemocratização não conseguiu produzir organizações partidárias semelhantes? Este já é o mais longo período com democracia contínua que tivemos. Onde estão os partidos que expressam o Brasil de hoje?

Só temos certeza de um: o PT. É o maior (em termos de simpatia popular e número de militantes), o mais organizado (com vida interna estruturada e dinâmica), o mais bem-sucedido (com um terceiro mandato presidencial sucessivo) e o mais nacional (com presença expressiva em municípios e comunidades do País inteiro) de todas as legendas que existiram em nossa história.

Por que só o PT? Por que não surgiu algo equivalente ou parecido em nenhum outro lugar do espectro ideológico? É evidente que nem todos os brasileiros são petistas. A se crer nas pesquisas, a maioria, aliás, não é. Então, por que nenhum veio ocupar o vazio existente?

Neste início de governo de Dilma Rousseff, os partidos de oposição atravessam sua pior crise. Ao contrário do que se falou logo após a eleição de 2010, quando houve quem dissesse que os resultados mostravam que era grande o sentimento oposicionista no País, estão confusos, desnorteados, em conflitos internos.

O DEM, sucessor da velha Arena criada pelos militares, parece um doente em fase terminal. Que futuro pode ter um partido incapaz de resistir ao assédio de alguém da importância política de Gilberto Kassab? Qualquer um vê o dedo de José Serra por trás desse PSD de agora, mas não deixa de ser lamentável a trajetória da antiga Frente Liberal. Hoje, o melhor destino para os que restarem será a incorporação ao PSDB.

Esse, cindido por brigas internas irreconciliáveis, perde filiados históricos e não consegue se desvencilhar de lideranças que o prendem ao passado. Anda tão mal que seu principal intelectual propõe que invente alguém para representar. Sem o “povão” que lhe deu as costas, Fernando Henrique Cardoso sugere ao partido tornar-se porta-voz das “novas classes médias”. Como se os partidos primeiro existissem e depois fossem à procura de quem os quer.

É possível que só tenhamos um PT pela simples razão de que só ele foi um partido que nasceu na sociedade, se organizou aos poucos e cresceu ao atrair gente comum. Se houve um partido, em nossa história, que se desenvolveu de baixo para cima, foi ele. Não é apenas isso que explica seu sucesso, mas é onde começa.

Dizendo o óbvio: o PT é forte por estar enraizado na sociedade. Os outros estão em crise por lhes faltar o “povão”.