sexta-feira, 29 de abril de 2011

Eldorado dos Carajás: A escola é orgulho, para romper com passado de exclusão

Há quinze anos, depois do massacre de Eldorado dos Carajás, no Pará, 690 famílias foram assentadas num latifúndio que tinha, então, 37 mil hectares. Muitos assentados eram analfabetos. Hoje, um dos orgulhos do “17 de Abril” é a escola, que permite às novas gerações romper com a história de exclusão das famílias. No terceiro retrato da vida no assentamento, que visitou recentemente, a repórter Manuela Azenha fala sobre educação:

Direto do VioMUndo


Altamiro da Silva e sua esposa voltaram a estudar “depois de velhos”, como ele mesmo diz. Vivem no assentamento 17 de abril. Altamiro veio de Goiás para trabalhar no garimpo do sul do Pará, mas chegou tarde para a extração manual, atividade já enfraquecida, então. Foi quando decidiu entrar no Movimento dos Trabalhadores Sem Terra. Isso foi há 16 anos.

Ele e a esposa, ambos com mais de 40 anos de idade, estão matriculados agora no ensino fundamental pelo EJA, o programa federal de alfabetização voltado para jovens e adultos.  “Essa camisa aqui é o uniforme da escola. Está vendo o meu nome?”, mostra Altamiro.

A filha deles, Gislane, tem 18 anos. A primeira sala de aula em que entrou foi na escola Oziel Alves Pereira, orgulho do assentamento, onde estudou até o terceiro colegial. Os atuais professores do ensino fundamental e muitos do ensino médio se formaram e hoje dão aulas na Oziel.

Ela atende a mais de mil alunos em três turnos, do maternal ao terceiro colegial. A escola leva o nome de um jovem militante que, já no hospital, foi espancado até a morte, no dia do massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996.

Hoje, Gislane é professora e trabalha no programa estadual de alfabetização “Sim, eu posso”, também voltado para jovens e adultos. O programa tem 14 professores no assentamento, cada um com cerca de 10 alunos, número máximo por turma. As professoras dão aula em suas próprias casas, mas se for preciso vão até onde os alunos vivem. Gislane viu seis de seus alunos serem certificados este ano.

Ao longo de mais de uma década de militância, o pai dela, Altamiro, ocupou inúmeros cargos
dentro do movimento e hoje é fiscal da Associação de Produção e Comercialização dos Trabalhadores Rurais do Assentamento 17 de Abril (ASPCTRA)

O lote de terra que ele ocupa é tido como exemplo de plantio orgânico bem sucedido. Altamiro orgulha-se particularmente do cultivo de cacau, que em 2010 rendeu duas toneladas e meia – mais do que qualquer outro produtor do município.

Muitos dos assentados passam por um processo de formação do MST. Mas, para Altamiro, foi na experiência cotidiana que aprendeu o que sabe: “Já vi muita miséria. Aprendi simplesmente porque colono não pode errar, se não a família toda sofre. É como na escola: quem tira nota baixa não passa de ano”.

Altamiro gosta de se explicar fazendo comparações. Em relação à terra, parece ser ela sua suprema companheira: “ É igual com mulher: no começo você fica deslumbrado, mas depois que se acostuma com ela, já quer trocar. Não pode ser assim, tem que tratar bem a terra, cuidar dela, que a relação dura para sempre”. Quando perguntado se aplica agrotóxicos em seu lote, responde com ternura: “Imagina, você ter uma planta bem linda e alegre, depois você vai jogar veneno nela?”



Segundo Luis Lima, presidente da ASPCTRA, a escola adota o método Paulo Freire, que associa a aprendizagem às questões concretas do cotidiano. Os programas para adultos são sempre divididos em módulos: o estudante passa 45 dias na escola e, em seguida, 60 dias no trabalho prático do campo, para que não se desligue de sua realidade.

Diversas citações de Freire estão pintadas nas paredes da Oziel Alves Pereira.

A escola é reconhecida como uma das melhores da região. É uma construção espaçosa e arejada, de 12 salas de aula equipadas com ar-condicionado, auditório para 100 pessoas, laboratório de química, salas de informática, de vídeo e biblioteca. Os equipamentos doados ao laboratório de química ainda estão encaixotados, já que os professores do próprio assentamento ainda não estão capacitados para utilizá-los: “Já pedimos à Universidade Federal do Pará (UFPA) que mande alguém para dar assistência aos professores. Tem produto químico que já está até vencido”, explica a coordenadora Risângela Almeida.

O objetivo da escola é montar um programa pedagógico que contemple a realidade do campo.

Na biblioteca estão guardados dezenas de livros didáticos que foram doados pela Secretaria Estadual de Educação mas que, segundo a coordenadora, são inadequados para qualquer escola fora do Sudeste: “Os jovens estão saindo do campo para trabalhar em qualquer subemprego na Vale do Rio Doce. Queremos formá-los para que criem vínculos com o campo e com sua história”.

Risângela vivia em Brasília quando foi visitar a irmã no assentamento e decidiu que queria viver ali. “No começo é difícil, mas depois a gente vai pegando amor pelas coisas daqui, pelas pessoas. É assim que tem de ser”. Ela já tinha prestado o vestibular várias vezes quando conseguiu entrar no curso de Letras da UFPA através de um convênio entre a universidade e o MST. Durante o dia assistia às aulas e, à tarde, voltava para o assentamento.

Risângela reclama da falta de autonomia em relação à Secretaria de Educação, que é quem financiou a construção da escola. Os trinta professores são selecionados pelo município de Eldorado dos Carajás: “Conseguimos ao menos que a Secretaria desse prioridade a professores do assentamento. Não queremos gente de fora”.

A coordenadora ressalta a importância do currículo de português. Acredita que os alunos devam aprender a ler e a escrever com fluência antes de estudarem a gramática: “Temos de dar o que eles realmente precisam. Discutimos e interpretamos muitos textos na sala de aula”. Uma vez por ano, é organizada a “Noite com poesias”. Na quadra da escola, todos os alunos, do maternal ao colegial, declamam poesias de autoria própria ou de poetas consagrados, como Cecília Meirelles, Vinícius de Morais e até Charles Trocate, militante do MST e autor de três livros de poesia.

Um exemplo sempre citado no assentamento é o de Leonildo, que entrou na escola sem saber ler ou escrever. Agora, com mais de sessenta anos, está na oitava série. Durante a semana de atividades para relembrar o massacre de 17 de abril, ele subiu no palanque da praça central do assentamento para declamar um poema em formato de cordel que ele mesmo escreveu.
Charles Trocate entrou no MST aos 16 anos de idade. Passou nove meses em um programa de estudos. “É aí que se consolidaram em mim preocupações mais gerais, o hábito da leitura, a profunda fé no trabalho coletivo e as primeiras formulações poéticas”, conta.

Hoje ele é da coordenação nacional do movimento. Um poeta reconhecido: “Falam que meus poemas são difíceis, mas eu não sei escrever de outro jeito. Com 16 anos entrei para a escola do movimento e ficava lendo Marx, Gramsci… Imagina só o jeito que eu saía falando das aulas!”, explica. A poesia do uruguaio Mario Benedetti foi uma de suas primeiras leituras. “O poeta se constrói ao construir. Não fica satisfeito até conseguir criar uma grande metáfora. Lia [Walt] Whitman, que me ensinou o poema-conceito; Drummond, que é a base da nossa educação sentimental; Maiakovski, que fala do trabalho na arte”.  Tanto aprecia Maiakovski que está aprendendo russo para traduzir um de seus poemas para o português.

Expulso da escola depois de um ano, Charles nunca mais retornou ao sistema de ensino convencional.  Quando menino, trabalhou no garimpo por dois anos. Como não era permitida a entrada de mulheres, nem de bebida, os garimpeiros iam à chamada “Cidade do Trinta”, atual Curianópolis, onde Charles passou a vender cuscuz às prostitutas na porta de boates. Trabalhou de bananeiro a engraxate. Foi alfabetizado pela irmã mais velha, que o ensinava a ler placas: “A gente morava na beira do rio, então descíamos para lavar as placas e aprender as letras. Até hoje tenho mania de ler todas as placas que vejo”.

Charles já publicou três livros de poesia pela editora Expressão Popular. No ano passado, foi convidado para fazer parte do Academia de Letras do Sul e Sudeste paraense: “Houve quem se opôs à minha aceitação porque sou do MST”.

Apreciador e estudioso de música, ele também coordena um grupo composto por jovens assentados e inspira-se em compositores consagrados: “Minha mãe colocou o disco do Bob Dylan para tocar quando eu tinha dois anos de idade. Desde então, sou marxista e poeta”, conta aos risos.

Atualmente, está escrevendo um texto sobre a relação entre a arte e o movimento político: “Não acredito em arte camponesa porque não acredito na arte operária. Arte é catarse, emancipa o homem e não pode estar presa a uma classe social”, defende Charles.

Clique aqui para ler o primeiro artigo da série, que fala sobre as sequelas físicas e psicológicas do massacre

E aqui para ler sobre as conquistas e dificuldades dos assentados na produção agrícola

quarta-feira, 27 de abril de 2011

I Encontro Estadual de Blogueiros do Rio de Janeiro


Data: 6, 7 e 08/05

Local: Memorial Getúlio Vargas (Praça Luís de Camões, ao lado do Hotel Glória - Metrô Estação Glória)

Presenças confirmadas de Altamiro Borges, Arthur William, Bemvindo Sequeira, Beto Mafra, Brizola Neto, Claudia Santiago, Cris Rodrigues, Eduardo Guimarães, Emir Sader, Hélio Paz, Jandira Feghali, José de Abreu, Luiz Carlos Azenha, Marcos Dantas, Paulo Henrique Amorim, Renato Rovai, Sergio Amadeu, Sr. Cloaca.

Acompanhe neste blog a evolução da organização e mais notícias sobre atrações. Deixe suas idéias em nossos comentários, colabore, pois esse evento é de todos os blogueiros e internautas em geral interessados em um Brasil e um mundo cada vez mais democrático e com maior acesso à pluralidade de opiniões e versões dos fatos.

Apoio:
Coordenadoria de Juventude da Prefeitura do Rio de Janeiro
RioTUR
Centro de Estudos da Mídia - Barão de Itararé
Rede Brasil Atual
DCE-Facha


Como se inscrever?
IMPORTANTE ESCLARECIMENTO: A INSCRIÇÃO SÓ ESTÁ CONCLUÍDA APÓS A INFORMAÇÃO JUNTO À ORGANIZAÇÃO DO EVENTO SOBRE SEU DEPÓSITO DA TAXA DE INSCRIÇÃO. SIGA RIGOROSAMENTE AS INFORMAÇÕES DESCRITAS ABAIXO.
As inscrições podem ser feitas até o dia 30/04 por aqui: http://www.jotform.com/migueldorosario/rioblogprog
Se quiser ajudar a divulgar, divulgue o link de inscrição no seu blog, acrescentando as seguintes informações:
A taxa de inscrição será de R$ 20,00. Enviar comprovante do depósito para o email (encontroblogsrj@gmail.com). No caso do Paypal, o comprovante é enviado automaticamente para a organização do encontro.

- Pagamento por depósito:

Caixa
...agencia: 0995
Conta: 00010392-9
Digito de Conta Poupança: 013

Banco do Brasil
agencia 0087-6
Conta Corrente 25018-x
Substitua o "x" pelo zero (0) em alguns sites de transferência.
- Para pagar com paypal (aceita todos os cartões):
https://www.paypal.com/cgi-bin/webscr?cmd=_s-xclick&hosted_button_id=DFYTF3RY8JNN4

IMPORTANTE: Neste caso, o preço é de 24,00 porque tem uma taxa administrativa do site que faz o serviço.


Programação
I Encontro Estadual de Blogueiros do Rio de Janeiro

Local: Memorial Getúlio Vargas (Ao lado do Hotel Glória)

Sexta-Feira – 06/05


18 horas – Abertura do credenciamento


19 horas – Palestra: “Democratizar a comunicação para democratizar o Brasil”
Palestrantes: Altamiro Borges, Eduardo Guimarães, Emir Sader, Luiz Carlos Azenha, Paulo Henrique Amorim e Renato Rovai. 
Mediação: Miguel do Rosário (Blog Óleo do Diabo).


22 horas: Coquetel de Confraternização.


Sábado – 07/05


08:30 horas – Oficina: Construção de blogs e redes sociais (Miguel do Rosário e Sergio Telles)
Painel 1: Rentabilidade e regulamentação da profissão de blogueiro (Suzana Blass)
Painel 2: Direito Autoral (Helio Paz)
Painel 3: Experiências locais de blogs (Cris Rodrigues e Marcio Kerbel)


11 horas – Palestra: “O marco regulatório e o Conselho Estadual de Comunicação”.
Palestrantes: “Paulo Ramos, Marcos Dantas (ECO-UFRJ), Jandira Feghalli, João Brant (Intervozes).
Mediação: Sergio Telles (Blog Opiniões - Sergio Telles).


13 horas – Ato político "Contra o monopólio da mídia" em frente a sede da Globo na Glória.

14 horas - Almoço


15 horas – Palestra: “O plano nacional de banda larga e a universalização da internet”
Palestrantes: Brizola Neto, Cláudia Santiago (NPC), Sergio Amadeu e Ricardo Negrão (Rede Brasil Atual).
Mediação: Theófilo Rodrigues (Blog Fatos Sociais).


17 horas – Lanche.


18 horas – Palestra: "Arte e humor na Blogosfera"
Palestrantes: Sr. Cloaca, Bemvindo Sequeira, Beto Mafra e José de Abreu.
Mediação: Flávio Lomeu (@Porra_Serra_)


22 horas - Festa de Confraternização


Domingo – 08/05


09 horas – Palestra: "A televisão que queremos: TV privada; TV pública; TV estatal; e TV comunitária".

Palestrantes: Arthur William (Intervozes), Ivana Bentes (ECO-UFRJ), Rodrigo Vianna (Record) e Marcos Oliveira (TVComunitária e ABCCOM).
Mediação: Marcos Pereira (Portal Vermelho)


12 horas – Assembleia Final.
--
#RioBlogProg - Política
Movimento dos Internautas Progressistas do Estado do Rio de Janeiro
Grupo de discussão sobre Política

 Outros contatos:

sábado, 23 de abril de 2011

Brisa - cenema possível

Brisa – um Filme de Jiddu Saldanha – Projeto Cinema Possível

Brisa é o primeiro filme do projeto Cinema Possível em HD, finalizado em Abril de 2011. No elenco: May Pasquetti, Artur Gomes e Jorge Ventura. Música de Marko Andrade, direção de Jiddu Saldanha. Poemas de Eliakin Rufino, Herbert Emanuel, Artur Gomes, etc... Este filme é dedicado àqueles que amam a poesia!

Jiddu Saldanha – Palavras do Diretor


meus lábios em teus ouvidos
flechas netuno cupido
a faca na língua a língua na faca
a febre em patas de vaca
as unhas sujas de Lorca
cebola pré sal com pimenta
tempero sabre de fogo
na tua língua com coentro
qualquer paixão re/invento

o corpo/mar quando agita
na preamar arrebenta
espuma esperma semeia
sementes letra por letra
na bruma branca da areia
sem pensar qualquer sentido
grafito em teu corpo despido
poemas na lua cheia


por que te amo
e amor não tem pele nome ou sobrenome
não adianta chamar
que ele não vem quando se quer
porque tem seus próprios códigos e segredos
mas não tenha medo
pode sangrar pode doer
e ferir fundo
mas é razão de estar no mundo
nem que seja por segundo
por um beijo mesmo breve
por que te amo
no sol no sal no mar na neve

                           
saiba mais sobre Brisa aqui: http://curtabrisa.blogspot.com



sexta-feira, 22 de abril de 2011

Saul Leblon: A disputa titânica entre o geógrafo e o comunicólogo

 

No Estadão, colunistas disputam o troféu “Almirante Pena Boto”

Direto do VioMundo

Em nome do mesmo anticomunismo cego, Pena Boto denunciava ao “Globo”, em 5 de outubro de 55, que um embrião de soviet germinaria no Brasil se a eleição de Juscelino Kubitschek fosse consumada: ‘É indispensável impedir que Juscelino e Goulart tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos”, convocava o almirante golpista. Baluarte dos valores ‘liberais’, que apoiou todos os golpes de Estado no país e na América Latina, com destaque para as campanhas ‘jornalísticas’ pela derrubada de Getúlio, em 54, de Goulart, em 64 e de Allende, no Chile, em 1973, o Estadão exibe dois talentos frescos engalfinhados numa disputa até o pescoço pelo troféu “Almirante Pena Boto”.

Saul Leblon, na Carta Maior

Trava-se nas páginas do Estadão uma disputa surda, que avança cabeça a cabeça para definir quem receberá o troféu “Almirante Pena Boto”, inspirado no militar que presidiu a ‘Cruzada Brasileira Anticomunista’ nos anos 50/60.

Baluarte dos valores ‘liberais’, que apoiou todos os golpes de Estado no país e na América Latina, com destaque para as campanhas ‘jornalísticas’ pela derrubada de Getúlio, em 54, de Goulart, em 64 e de Allende, no Chile, em 1973, o jornal exibe dois talentos frescos engalfinhados numa disputa até o pescoço.

Um sociólogo/geógrafo e um comunicólogo da ECA colecionam credenciais ao panteão do udenismo lacerdista. No futuro, possivelmente, um deles será “o” editorialista do jornal. Um sucessor de Oliveiros S. Ferreira.

O duelo de titãs enseja versões alternadas de anti-petismo típico dos egressos da esquerda, como é o caso, engajados na expiação pública de um passado convertido em moeda de troca de carreira e bajulação.

No ano passado, na abertura do 8.º Congresso Brasileiro de Jornais, por exemplo, o sociólogo/geógrafo do Estadão (e também do GLOBO) denunciou a emergência de “democracias plebiscitárias” na América Latina. No seu entender, elas subtrairiam da imprensa o papel de mediador, para estigmatizá-la como um partido político, “um jogador da política”, como qualquer outro.

“O projeto da tirania plebiscitária”, advertiu, “exige a eliminação do mediador, que é, no fundo, a eliminação da opinião pública”. Um exemplo dessa ofensiva, segundo o colunista sociólogo, “para eliminar a imprensa e fazer com que o Estado converse diretamente com os cidadãos”, seria o Blog da Petrobrás.

Arrojado? Sem dúvida.

Justiça seja feita, porém, esta semana o comunicólogo e professor da ECA atropelou o sociólogo no derby dos novos vulgarizadores do conservadorismo nativo.

Seu artigo neste 21 de abril não surpreende pela direção. Trata-se de uma variação na constante de manifestações recentes, mas condensa em uma única cápsula todos os cacoetes, chistes e coágulos tradicionalmente injetados no metabolismo do alvo intolerável da direita: Cuba. Nisso torna-se uma peça superlativa da vulgarização anticomunista.

O socialismo em Cuba é um produto histórico, uma carpintaria política erigida sob relações de forças brutalmente adversas. Como tal enseja críticas, comporta avanços e desafia a rupturas renovadoras e desassombradas. O VI Congresso, gancho do artigo do comunicólogo, revelou-se uma porta aberta a essa saudável e urgente renovação histórica. Mas não é isso que avulta nas linhas em questão. O que emana ali é a férrea determinação em proclamar o fracasso irreversível da sociedade que ousou afrontar o império para se construir de forma diversa e solidária, a 145 quilômetros de Miami.

Ignora-se olimpicamente o colapso estrutural decorrente do cerco iniciado em 19 de outubro de 1960, quando a administração Eisenhower impôs um embargo econômico aniquilador contra Cuba, até hoje mantido.

O articulista prefere elidir esses incômodos. Aliviado da carga histórica, pode patinar o gelo fino do cinismo e carimbar a resistencia anti-imperialista cubana como ‘a religião’ do regime que nisso se ombrearia -rodopia nosso Baryshnikov dos salões liberais – à demonização norte-americana promovida pelo Estado iraniano.

Nada como matar dois coelhos a serviço do mesmo minueto conservador. Mas a prioridade é clara.

No momento em que Cuba abre um ciclo de renovação política, trata-se de subtrair ao povo cubano –à esquerda em geral, sejamos francos, esse é o ponto– a capacidade histórica de se reinventar no socialismo. É nisso que o artigo se credencia como um libelo de anti-comunismo visceral.

Em nome do mesmo anticomunismo cego, Pena Boto denunciava ao “Globo”, em 5 de outubro de 55, que um embrião de soviet germinaria no Brasil se a eleição de Juscelino Kubitschek fosse consumada: ‘É indispensável impedir que Juscelino e Goulart tomem posse dos cargos para que foram indevidamente eleitos”, convocava o almirante golpista.

A profilaxia anticomunista fracassou; Boto escafedeu-se; seu parceiro de armas, Carlos Lacerda, exilou-se na embaixada de Cuba, onde teve imediata acolhida do ditador Fulgêncio Batista. A ilha então era um campo indiviso de bordel e miséria, povoado de gente barata integralmente disponível ao repasto dos magnatas norte-americanos. Não por acaso, esse passado de fastígio ‘democrático’ e relações carnais com o império merece silêncio obsequioso do comunicólogo da ECA que, pelo visto, não rompeu apenas com a esquerda, mas também com a honestidade histórica.

terça-feira, 19 de abril de 2011

juras secretas


Jura secreta 7

fosse Sampa uma cidade
ou se não fosse não importa
essa cidade me transporta
me transborda me alucina
me invade inter fere na retina
com sua cruel beleza

como Oswald de Andrade
e sua realidade
como Mário de Andrade
e sua delicadeza



Jura secreta 6

o que passou não ficará já foi
a menina dos meus olhos
roubou a tua menina
e levou para festa do boi

fosse um Salgado Maranhão
nosso batismo de fogo
25 de março
e o morro queimando em chamas
no canto pro tempo nascer

e o amor que a gente faria
o sol acabou de fazer


Jura secreta 5

não fosse essa alga
queimando em tua coxa
ou se fosse e já soubesse
mar o nome do teu macho
o amor em ti consumiria

Olga Savary
no sumidouro dos meus dias

o couro cru
na antropofágica erótica
carne viva
tua paixão em mim
voraz língua nativa


Jura secreta 4
a menina dos meus olhos
com os nervos à flor da pele
brinca de bem-me-quer
ela inda pensa que é menina
mas já é quase uma mulher


Jura secreta 3

fosse essa jura sagrada
como uma boda de sangue
às 5 horas da tarde
a cara triste da morte
faca de dois gumes
naquela nova granada
e Federico Garcia Lorca
naquela noite de Espanha
não escrevesse mais nada

 


segunda-feira, 18 de abril de 2011

A Islândia põe os seus banqueiros na prisão

“A primeira vítima da crise financeira constitui-se como uma valente tentativa de pedir responsabilidades”. Claudi Pérez (El País) conta neste artigo a história da ascensão e da queda da economia islandesa. Nos anos 80, o governo privatizou a pesca: dividiu-a em quotas e fez uns quantos pescadores milionários. A partir daí, sob o influxo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o país converteu-se na quintessência do modelo liberal, com baixos impostos, privatizações e desregulamentações. Taxas de juro à volta de 15% atraíam as poupanças dos dentistas austríacos, dos reformados alemães e dos comerciantes holandeses. Uma economia sã, assentada em sólidas bases, converteu-se numa mesa de cassino.

Procura-se. Homem, 48 anos, 1,80 metros, 114 quilos. Calvo, olhos azuis. A Interpol acompanha esta descrição de uma foto na qual aparece um tipo bem barbeado enfiado num desses ternos escuros de 2000 euros e enfeitado com um impecável nó de gravata. Vê-se à quilômetros que se trata de um banqueiro: este não é um desses cartazes do oeste selvagem.

A delinquência mudou muito com a globalização financeira. E contudo esta história tem contornos de western de Sam Peckinpah ambientado para o Ártico. Isto é a Islândia, o lugar onde os bancos vão à ruína e os seus dirigentes podem ir para a cadeia sem que o céu se abata sobre as nossas cabeças; a ilha onde apenas meio milhão de pessoas armadas com perigosas tochas podem derrubar um governo. Isto é a Islândia, o pedaço de gelo e rocha vulcânica que em tempos foi o país mais feliz do mundo (assim, tal como consta) e onde agora os taxistas lançam os mesmos olhares furibundos que em todas as partes quando se lhes pergunta se estão mais chateados com os banqueiros ou com os políticos. Enfim, Isto é a Islândia: paraíso sobrenatural, reza o cartaz que se avista do avião, mesmo antes de desembarcar.

O tipo da foto chama-se Sigurdur Einarsson. Era o presidente executivo dum dos grandes bancos da Islândia e o mais temerário de todos, Kaupthing (literalmente, "a praça do mercado"; os islandeses têm um estranho sentido de humor, para além duma língua milenar e impenetrável). Einarsson já não está na lista da Interpol. Foi detido há uns dias na sua mansão de Londres. E é um dos protagonistas do livro mais lido na Islândia: nove volumes e 2400 páginas para uma espécie de saga delirante sobre os desmandes que a indústria financeira pode chegar a perpetrar quando está totalmente fora de controle.

Nove volumes: praticamente episódios nacionais em que se demonstra que nada disso foi um acidente. A Islândia foi saqueada por cerca de 20 ou 30 pessoas. Uma dezena de banqueiros, uns poucos empresários e um punhado de políticos formaram um grupo selvagem que levou o país inteiro à ruína: 10 dos 63 parlamentares islandeses, incluindo os dois líderes do partido que governou quase ininterruptamente desde 1944, tinham empréstimos pessoais concedidos por um valor de quase 10 milhões de euros por cabeça. Está por demonstrar que isso seja delito (embora pareça que parte desse dinheiro servia para comprar ações dos próprios bancos: para fazer inchar as cotações), mas pelo menos é um escândalo enorme.

A Islândia é uma exceção, uma singularidade; uma raridade. E não só por deixar os seus bancos ir à falência e perseguir os banqueiros. A ilha é uma paisagem lunar com apenas 320 000 habitantes a meio caminho entre a Europa, os EUA e o círculo polar, com um clima e uma geografia extremos, com uma das tradições democráticas mais antigas da Europa e, último tópico, com uma gente de indomável caráter e uma forma de ser e fazer das mais peculiares.

Um lugar onde um desses taxistas furibundos, depois de deixar para trás a capital, Reikjavik, se mete por uma língua de terra rodeada de água e deixa o jornalista ao pé da distinta residência presidencial, com o mesmíssimo presidente esperando na soleira da porta: qualquer um pode aproximar-se sem problemas, não há medidas de segurança, nem sequer um polícia. Só o pormenor exótico duma enorme pele de urso polar no alto duma escadaria tira do pasmo quem numa primeira entrevista com um presidente dum país dá com um mandatário - Ólagur Grímsson, que considera "uma loucura" que os seus concidadãos "tenham de pagar a fatura da banca sem serem consultados".
E do presidente ao cidadão de pé-no-chão: da particularidade à categoria. Arnar Arinbjarnarsson é capaz de resumir o apocalipse da Islândia com surpreendente impavidez, à frente dum fumegante capuchino no central Café Paris, a dois passos do Althing, o Parlamento. Arnar tem 33 anos e estudou engenharia na universidade, mas, ao acabar nem sequer lhe passou pela cabeça desenhar pontes: um dos bancos contratou-o, apesar de não ter formação financeira. "A banca estava experimentando um crescimento explosivo, e para um engenheiro é relativamente simples aprender matemática financeira, sobretudo se o ordenado for estratosférico", alega.

A Islândia costumava ser o país mais pobre da Europa nos princípios do século XX. Nos anos oitenta, o governo privatizou a pesca: dividiu-a em quotas e fez uns quantos pescadores milionários. A partir daí, sob o influxo de Ronald Reagan e Margaret Thatcher, o país converteu-se na quintessência do modelo liberal, com uma política económica de baixos impostos, privatizações, desregulamentações e além do mais: a sombra de Milton Friedman, que viajou durante essa época para Reikiavik, é alargada. Aquilo funcionou.

O rendimento per capita situou-se entre os mais altos do mundo, o desemprego estabilizou em 1% e o país investiu em energia verde, unidades industriais de alumínio e tecnologia. O ápice deu-se com o novo século: o Estado privatizou a banca e os banqueiros iniciaram uma corrida desaforada pela expansão dentro e fora do país, ajudados pelas mãos deixadas livres com a falta de regulamentação e com taxas de juro à volta de 15% que atraíam as poupanças dos dentistas austríacos, dos reformados alemães e dos comerciantes holandeses. Uma economia sã, assente em sólidas bases, converteu-se numa mesa de black jack. Nem sequer faltou uma campanha nacionalista a favor da supremacia racial da casta empresarial, o que talvez demonstre como é perigoso meter esse tipo de bobagens na cabeça das pessoas, seja "as casas nunca baixam de preço" ou "os islandeses controlam melhor o risco pelo seu passado viking".
A festa descontrolou-se: os ativos dos bancos chegaram a multiplicar o PIB por 12. Apenas a Irlanda, outro exemplo de modelo liberal, se aproxima dessas cifras. Até que da noite para o dia - com o colapso da Lehman Brothers e o estouro financeiro mundial - tudo se desmoronou, no que foi "o choque mais brutal e fulminante da crise internacional", assegura Jon Danielsson, da London School of Economics.

Mas voltemos a Arnar e ao seu relato: "a banca começou a desbaratar dinheiro em farras com champanhe e estrelas de rock; comprou ou ajudou a comprar meia Oxford Street, vários clubes de futebol da liga inglesa, bancos na Dinamarca, empresas por toda a Escandinávia: tudo o que estivesse à venda e tudo a crédito". Os executivos concediam créditos milionários a si mesmos, a familiares, a amigos e aos políticos próximos, frequentemente sem garantias. A Bolsa multiplicou o seu valor por nove entre 2003 e 2007. Os preços dos andares triplicaram. "Os bancos levantaram um obsceno castelo de cartas que levou tudo à frente", conta Arnar, que conserva o seu emprego, mas com metade do ordenado. Acaba de comprar um barco em parceria com o pai com a intenção de mudar de vida: quer dedicar-se à pesca.

A fábula duma ilha de pescadores que se converteu num país de banqueiros tem uma moral: "Talvez seja a hora de voltar ao começo", reflete o engenheiro. "Talvez todo esse dinheiro e esse talento que a banca absorve quando cresce demasiado não só se converta num foco de instabilidade, como que subtraia recursos a outros sectores e possa chegar a ser nocivo ao impedir que uma economia desenvolva todo o seu potencial", diz o presidente Grímsson.

A magnitude da catástrofe foi espectacular. A inflação descontrolou-se, a coroa veio abaixo, o desemprego cresceu a toda a velocidade, o PIB caiu 15%, os bancos perderam uns 100 mil milhões de dólares (há-de passar muito tempo até haver números definitivos) e os islandeses continuaram a ser ricos, mais ou menos: metade do que eram antes. De quem foi a culpa? Dos bancos e dos banqueiros, naturalmente. Dos seus excessos, daquele forrobodó de crédito, da sua desmedida cobiça. Os bancos são o monstro, a culpa é deles e, de toda a forma, dos políticos que lhes permitiram tudo isso. OK. Não há dúvida. Somente dos bancos?

"O país inteiro viu-se apanhado numa bolha. A banca sentiu um desenvolvimento repentino, coisa que agora vemos como algo estúpido e irresponsável. Mas as pessoas fizeram algo parecido. As regras normais das finanças permaneceram suspensas e entramos na era do vale tudo: duas casas, três casas por família, um Range Rover, uma moto de neve. Os salários subiam, a riqueza parecia sair do nada, os cartões de crédito faziam fumaça", explica Ásgeir Jonsson, ex-economista chefe da Kaupthing. O também economista Magnus Skulasson assume que essa loucura coletiva levou um país inteiro a parecer dominado pelos valores de Wall Street, da banca de investimento mais especulativa. "Nós islandeses contribuímos decisivamente para que se passasse o que passou, por permitirmos que o governo e a banca fizessem o que fizeram, mas também participamos dessa combinação de cobiça e estupidez. Os bancos merecem ficar afastados do jogo e nós merecemos uma parte do castigo: mas só uma parte", afirma no restaurante dum hotel central.

Uma coisa salva os islandeses, de alguma maneira os redime de parte desses pecados. No seu incisivo Indignai-vos!, Stephane Hessel descreve como os financeiros na Europa e nos EUA, culpados indiscutíveis da crise, salvaram o buraco e continuam com a sua vida como sempre: voltaram os lucros, os bónus, essas coisas. Em compensação, as suas vítimas não recuperaram o nível de ganhos, e muito menos o emprego. "O poder do dinheiro nunca havia sido tão grande, insolente, egoísta com todos", acusa e, contudo, "os banqueiros mal suportaram as consequências dos seus desaforos", acrescenta no prólogo do livro o escritor José Luis Sampedro.

Assim é: salvo talvez no Ártico. A Islândia fez uma valente tentativa de pedir responsabilidades. "Deixar falir os bancos e dizer aos credores que não vão cobrar tudo o que se lhes deve ajudou a mitigar algumas das consequências das loucuras dos seus banqueiros", assegura por telefone a partir do Texas o economista James K. Galbraith.

Contada assim, a versão islandesa da crise tem um toque romântico. Mas a economia é sempre mais prosaica do que parece. Há quem relate uma historia diferente: "Simplesmente, não havia dinheiro para resgatar os bancos: caso contrário, o Estado tê-los-ia salvado: Chegamos a pedi-lo à Rússia!", critica o cientista político Eirikur Bergmann. "Foi um acidente: não queríamos, mas tivemos de deixá-los falir e agora os políticos tratam de vender essa lenda de que Islândia deu outra resposta".

Seja como for, a crise deixou uma cicatriz enorme que continua bem visível: há controle de capitais, um delicioso eufemismo do que no hemisfério Sul (e mais concretamente na Argentina) costuma chamar-se "corralito". O desemprego continua acima dos 8%, taxas desconhecidas por estes lares. A queda da coroa empobreceu todo o país, exceto as empresas exportadoras. Quatro em cada dez lares endividaram-se em divisas ou com créditos ligados à inflação (parece que, em geral, para comprar segundas residências e carros de luxo), o que deixou um buraco considerável no bolso das pessoas. Depois de deixar falir o sistema bancário, o Estado nacionalizou-o e acabou a injetar montões de dinheiro - o equivalente a uma quarta parte do PIB - para que a banca não deixasse de funcionar e agora começa a reprivatizá-lo: a vida, de algum modo, continua igual.

Tudo isso elevou a dívida pública acima de 100% do PIB e para controlar o déficit os islandeses nem sequer se livraram da maré de austeridade que percorre a Europa desde o Estreito de Gibraltar até à costa da Gronelândia: mais impostos e menos gastos públicos. No final a Islândia teve que pedir um resgate ao FMI e o Fundo aplicou as receitas habituais: elevaram o IRS e o IVA islandeses e criaram novos impostos, e pelo lado dos gastos baixaram os salários e benefícios sociais e estão a fechar escolas; reduziu-se o Estado social. Que é o que costuma suceder quando de repente um país é menos rico do que pensava.

"Andamos uma década para trás", encerra Bergman. E mesmo assim o governo e o FMI asseguram que a Islândia crescerá este ano uns 3%: a queda da coroa permitiu um arranque das exportações, há setores de ponta - como o alumínio - que estão passando por uma crise muito proveitosa, e, ao fim e ao cabo, a Islândia é um país jovem com um nível educacional excelente. Entre a dezena de fontes consultadas para esta reportagem, contudo, não abunda o otimismo. Um dos economistas mais brilhantes da Islândia, Gylfi Zoega, desenha um panorama preocupante: "os bancos ainda não estão operacionais, os balanços das empresas estão prejudicados, o acesso ao mercado de capitais está fechado, o governo mostra uma debilidade alarmante. Não há consenso sobre que lugar a Islândia e a sua economia devem ocupar no mundo. Vamos à deriva... não se engane: nem sequer o colapso dos bancos foi uma opção; não havia alternativa. A Islândia não pode ser modelo de nada".
Há quem duvide inclusivamente de que os banqueiros venham finalmente a dar com os ossos na cadeia: "os executivos foram detidos várias vezes, e depois, postos em liberdade: como tantas outras vezes, isso é mais uma brincadeira com a opinião pública que outra coisa", assegura Jon Danielsson. Hannes Guissurasson, assessor do anterior governo e conhecido pela sua férrea defesa de postulados neoliberais, até traça uma estreita linha entre o delito e algumas das práticas bancárias dos últimos anos. "Muito poucos banqueiros vão parar à prisão, se é que algum vai: a excessiva tomada de riscos infringe que lei?" pergunta-se.

Mas os mitos são os mitos (e um jornalista deve defender a sua reportagem até ao último parágrafo) e a Islândia deixa várias lições fundamentais. Uma: não está claro se deixar falir um banco é um ato reacionário ou libertário, mas o custo, ao menos para Islândia, é surpreendentemente baixo; o PIB da Irlanda (cujo governo garantiu toda a dívida bancária) caiu o mesmo e as suas perspectivas de recuperação são piores. Dois: ter moeda própria não é um mau negócio. Em caso de aflição desvaloriza-se e vitória, vitória que se acabou a história; isso permite sair da crise com exportações, algo que nem a Grécia nem a Irlanda (nem a Espanha) podem fazer.

O último e definitivo ensinamento vem da mão do grupo selvagem que ninguém viu vir: nem as agências de classificação de riscos nem os auditores anteciparam os problemas (ainda que o que uma boa auditoria não descobre, uma boa crise desvela: Pricewaterhousecoopers está acusada de negligência). Mas os problemas estavam aí: a prova é que a imensa maioria dos executivos da banca estão na rua e alguns aguardam julgamento. O nosso Sigurdur Einarsson, o banqueiro mais procurado, tratou de comprar uma mansão em Chelsea, um dos bairros mais exclusivos de Londres, por 12 milhões de euros.

A maioria dos banqueiros que tem problemas com a justiça fizeram o mesmo durante os anos do boom, e menos mal que o fizeram: as pessoas apupavam-nos no teatro, atiravam-lhes bolas de neve em plena rua, lançavam bocas nos restaurantes ou deixavam espirituosas pinturas nas casas. Saíram correndo da Islândia. O caso é que Einarsson não teve de sair: vivia na sua estupenda mansão londrina desde 2005. A hipoteca não era problema: Einarsson decidiu alugá-la ao banco enquanto vivia na casa; ao fim e ao cabo, um presidente é um presidente e esse é o tipo de demonstrações de talento financeiro que só trazem surpresas no improvável caso de que a justiça se meta no meio.

A Islândia parece o lugar adequado para que sucedam coisas improváveis: segundo as estatísticas, mais de metade dos islandeses acredita em elfos. No avião de volta percebe-se melhor a publicidade do aeroporto, sobretudo porque as fontes consultadas descartam que, se finalmente há condenação dos banqueiros, o governo islandês vai conceder apenas um indulto. Isto é a Islândia: paraíso sobrenatural. Ai, não que não é!

O 'caso Icesave' (e outras peculiaridades)

O tubarão putrefato é um dos pratos típicos da Islândia, que tem uma noite infindável (não só pelas horas de escuridão), uma das poucas primeiras-ministras do mundo (Johana Sigurdardottir, abertamente lésbica) e um museu do pênis (e isto não é uma brincadeira). A lista de peculiaridades é infindável: é mais fácil entrevistar o presidente da Islândia que o presidente da câmara de Reikjavik, Jon Gnarr, célebre por fazer acordos só com quem tenha visto as quatro temporadas de The Wire. Com a crise, as singularidades alcançaram mesmo o sempre aborrecido setor financeiro: em Londres chegaram a aplicar-lhe métodos antiterroristas.

Landsbanki, um dos três grandes bancos islandeses, abriu uma filial pela Internet com uma conta de poupança a altas taxas de juro, Icesave, que fez furor entre britânicos e holandeses. Quando as coisas começaram a dar errado e o governo britânico detectou que o banco estava a repatriar capitais, aplicou-lhe a lei antiterrorista para congelar os fundos. Esse foi o detonador de toda a crise: provocou a falência em cadeia de toda a banca. E continua a dar tremendas dores de cabeça à Islândia.

A Holanda e o Reino Unido devolveram aos seus cidadãos 100% dos depósitos e agora exigem esse dinheiro: 4 bilhões de euros, um terço do PIB islandês, nada menos. O governo chegou a um acordo para que os cidadãos pagassem em 15 anos e a 5,5% de juro: as pessoas organizaram-se para rejeitar a proposta num referendo, depois do veto do presidente. Assim chegou um segundo pacto, mais vantajoso (juros de 3%, a pagar em 37 anos), e de novo as pessoas decidirão em abril em referendo se pagam ou não pelos desmandes dos seus bancos [o artigo foi escrito antes do referendo de dia 9 de abril, do qual saiu recusado este novo acordo – quase 60% dos islandeses votaram não].

Agni Asgeirsson, ex-executivo que foi despedido da Kaupthing e agora trabalha como engenheiro em Río Tinto, é cortante a esse respeito: "o primeiro acordo era claramente uma fraude. Este é mais discutível. Não queremos pagar, mas isso acrescentaria incerteza legal sobre o futuro do país. Mas interessante é como reagiram as pessoas". Esse é talvez o maior atrativo da resposta islandesa: a parlamentar e ex-magistrada francesa Eva Joly (a quem se atribuiu o início da investigação sobre a banca) assegura que o mais chamativo na Islândia é que num país "que se considerava a si mesmo um milagre neoliberal e onde se tinha perdido gradualmente todo o interesse pela política, agora as pessoas querem ter o destino nas suas próprias mãos".
"Isso sim: a fé nos políticos e nos banqueiros demorará a voltar, antes de muito, muito, tempo", conclui o cônsul de Espanha, Fridrik S. Kristjánsson.

Tradução de Paula Sequeiros (Esquerda.net)


Fotos: A Interpol emitiu um mandado de busca em nome de Sigurdur Einarsson, presidente executivo de um dos maiores bancos da Islândia, o Kaupthing, que acabou nacionalizado quando da crise de 2008.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

juras secretas


Jura secreta 2
não fosse esse punhal de prata
mesmo se fosse e eu não quisesse
o sangue sob o teu vestido
o sal no fluxo sagrado
sem qualquer segredo

esse rio das ostras
entre tuas pernas
o beijo no instante trágico
a língua sem que ninguém soubesse
no silêncio como susto mágico
e esse relógio sádico
como um Marquês de Sade
quando é primavera



Jura secreta 1
a língua escava entre os dentes
a palavra nova
fulinaimânica/sagarínica
algumas vezes muito prosa
outras vezes muito cínica

tudo o que quero conhecer:
a pele do teu nome
a segunda pele o sobrenome
no que posso no que quero

a pele em flor a flor da pele
a palavra dândi em corpo nua
a língua em fogo a língua crua
a língua nova a língua lua

fulinaímica/sagaranagem
palavra texto palavra imagem
quando no céu da tua boca
a língua viva se transmuta na viagem



Jura Secreta

não fosse essa jura secreta
mesmo se fosse e eu não falasse
com esse punhal de prata
o sal sob o teu vestido
o sangue no fluxo sagrado
sem nenhum segredo

esse relógio apontado pra lua
não fosse essa jura secreta
mesmo se fosse eu não dissesse
essa ostra no mar das tuas pernas
como um conto do Marquês de Sade
no silêncio logo depois do susto


artur gomes
http://juras-secretas.blogspot.com

quinta-feira, 7 de abril de 2011

luneta

 
amor que se consuma
SOME.
amor que se consome
SUMA.

colméia

o lápis ferroa o papel
letras pousam como abelhas
e o poema tem gosto de mel.

jardim distante

acima da flor
a rima vera prima
era a cor e odor
do clima.

bala perdida

tiro certo no escuro

errado foi o muro
que adiou nosso futuro.

conto de fadas

mamãe não disse
que o príncipe só é príncipe
no principio.

ateu graças a deus

me causa riso
esse inferno e paraíso

desse deus eu não preciso

anatomia

giz riscando a lousa

sobre os seios da professora
meu olhar repousa.

porto príncipe

incrível essa foto:
um sorriso de criança
em meio ao terremoto.
 
vida que se vê
nos olhos desertos
da boneca
sempre abertos

é fácil perceber
a infância está por perto.

hipermetropia

eu te vi
e cego
já não sei
se te sigo
ou se te nego.

asa à cobra

guiso
fácil riso
amor assim
preciso

raso
fluido
sem sonhar ser paraíso

leve
assim mesmo
como se deve
amor de ave
e não de eva

amor de luz
amando a treva.